Quero almoçar bem longe,
Quero almoçar na Zona Leste.
Ou, quem sabe, almoçar num quilo em Cambuci.
Se o trânsito estiver bom, quero almoçar em Sapobemba.
Depois tomar café no Jaçanã,
E tirar um cochilo no Tucuruvi.
Casar-me em Marsilac,
Ter um filho na Brasilândia,
Mudar-me com a família para o Mandaqui.
Atropelada em Tremembé,
Internada em Pirituba,
Morrer duas horas depois na emergência do Pari.
Quero ser velada no Carrão,
Morada eterna no Limão.
A missa de sétimo dia, no Taboão.
Não tenho medo do aquecimento global e acho ok o Irã enriquecer urânio. O que mais me assusta na atual conjuntura global é a palestrização do mundo.
Vivemos a apoteose triunfal do caga-regras no seu pior formato, disfarçado de gente inteligente e esclarecida, e disposto a discutir todos as questões cruciais para o desenvolvimento humano e a perpetuação da nossa espécie na Terra.
Toda vez que ligo a TV e perco cinco minutos sapeando entre alguns canais ouço entre duas e seis palestras. Até nas novelas tem gente dando palestras. Aliás, as novelas são só palestras. Nada de tramas, intrigas, traições e paixões proibidas, a moda agora é palestrar pelado. Pior que nem pelado é. Se alguém, o Tony Ramos por exemplo, aparecesse numa cena palestrando pelado seria uma muito, muito engraçado. Mas as pessoas aparecem vestidas como seres distintos e aptos a abordar qualquer tema – a palavra ‘abordar’ aprendi nas palestras; a expressão ‘trazer à baila’ também.
Nos livros é a mesma coisa. Quem precisa de personagens e historias se podemos escrever palestras? Pra que ser romancista se posso ser palestrante por escrito? Você nunca abriu um livro e sentiu no começo do segundo capítulo uma luzinha de laser apontada pro seu nariz? Então, era um personagem tentando começar uma palestra.
Personagem de novela, filme e livro é tudo palestrante disfarçado. Quando menos você espera eles sacam um tema polêmico e te apunhalam pelas costas, ou melhor, te aspeiam pelas costas.
Internet é palestra pura. Blogueiros ganham a vida dando palestras. Sommelier no restaurante não te ajuda a escolher o vinho, faz uma palestra. O mendigo no semáforo não te pede uma esmola, faz uma explanação sobre a situação de exclusão dele. Os jornalistas jamais te informam sobre um fato, eles fazem da notícia a sua mini-palestra.
Cadê a fofoca, minha gente? Cadê o sensacionalismo, a violência, a pornografia? Cadê os contadores de história? Saudoso Rolando Boldrin.
O grande erro foi ter deixado as palestras fugirem das universidades. Deixem as palestras para a universidade. Prendam os palestrantes nas universidades. E coloquem uma placa na porta: Cuidado! Palestra.
Aprendi nas palestras que devo gostar dos pretos, ajudar os pobres, drogados, aleijados e retardados. Devo ter uma alimentação equilibrada, mesmo que minha cabeça não seja. E devo perguntar ao Papa se posso usar camisinha. Mas também aprendi que não posso dizer nunca as palavras preto, pobre, drogado, aleijado, retardado, bandido, fritura e camisinha.
Sofrimento atroz de viver num mundo onde tudo é discussão séria sobre um tema importante. Espero pelo dia em que estarei tomando banho e terei meu box invadido por um palestrante esclarecendo-me sobre o problema dos banhos matinais. Abrirei a geladeira e um palestrante sairá de trás da mortadela com uma apresentação em Power Point projetada no meu peito. Se chegarmos a esse ponto, me disponho a morrer pela causa. Prometo me explodir por um mundo sem palestras na fila do Espaço Unibanco ou na choperia do Sesc Pompéia. Em troca só peço que não transformem a minha causa numa palestra.
E antes que eu me esqueça: vai conscientizar a tua mãe, filho da puta!