Sou o pior tipo de católica, morníssima até não poder mais. E certeza que não conseguirei mudar isso tão logo. Tenho plena convicção de que igreja é coisa de véio, ainda é muito cedo para salvar a minha alma. Muita gente deve ter a mesma impressão com o aumento da expectativa de vida e o advento do botox.
No fundo é uma questão de praticidade: a vida pode ser tããão longa que a alma que se salva agora se perde logo ali na esquina. E aí toca salvar de novo.
Melhor deixar pra salvar definitivo no final. Vou deixar pra salvar a minha quando sentir o ceifeirio implacável fungando no cangote.
Mesmo se não der tempo, acho que dá pra justificar os pecados nos Correios até três meses depois do passamento. Paga-se R$ 3,50 e estamos quites com a justiça divina.
Tudo bem que dessa forma há o risco de ser chamado para trabalhar de mesário no próximo juízo final.
Universidade, aula inaugural. Burocratas de bigode falaram infinitas maravilhas sobre a instituição de ensino superior e esclareceram em três vias o funcionamento da máquina do saber. Mestres e doutores trouxeram à baila questões mui sábias, sublimes, seculares e sapecas. Disseram e disseram até que o último orador pausou o seu discurso, suspirou e finalizou: "Cada um sabe a dor e delícia de ser o que é." E saímos com aquele caetanear ecoando em nossas mentes calouras.
Mais tarde, nas aulas de filosofia, niilismo vai, existencialismo vem e ardilosamente o mestre inquieta-nos com a questão: "Existirmos: a que será que se destina?".
Nas aulas de psicopatologia, quando tentávamos vislumbrar a fina fronteira que separa a sanidade da loucura, outro sábio mestre nos alertou: "De perto ninguém é normal".
Mais crescidinhos, já podíamos falar sobre repressão e conteúdos inconscientes, e o mestre que nos conduzia nesta ousadia arriscou a vida para nos ensinar. Saltou da fria e recalcada Viena para cair certeiro na ditadura militar, que ele considerava um exemplo perfeito para explicar qualquer coisa, inclusive como a repressão funciona na mente das gentes. Foi uma incrível acrobacia de raciocínio metafórico, um salto mortal triplo que terminou num triunfante "É proibido proibir". Não, ele não quebrou o pescoço.
Depois disso tudo fui praticamente forçada a concluir que Caetano é o grande poeta da mente/alma humana, que ele traga e traduz em verde, em folha, em graça, em vida, em força e luz.
Muito bonito mas não é verdadeiro. Sou espertíssima e não me deixo enganar pela Veja e Rede Globo. ;) Além disso fui graduada por gente vivida, que me ensinou que a mídia manipula tudo, até o Caetano.
Depois da leitura de muitos artigos científicos e teses de doutorados finalmente tive o insight: a verdade verdadeira é que Caetano paga jabá para ser citado nas universidades.
Só isso explica o fofíssimo "Gosto muito de te ver, Leãozinho" que ainda ouvi do paraninfo no dia da colação de grau.
E pobre quer saber de desenvolvimento econômico?
Geraldo teria virado o jogo se tivesse prometido Ipod, televisão de prasma, preistêixom e prástica pelo SUS.
No restaurante:
Eu podia estar por aí fazendo malabarismo nos cruzamentos, pedindo cotas pra universidade pública ou recebendo o Bolsa Família, mas não, estou aqui assaltando vocês honestamente. Por favor, contribuam passando jóias, celulares e carteiras. Não quero sua palavra de consolo, pode ficar com a sua inclusão e não me passa o endereço da ONG onde você faz trabalho voluntário. Se fizerem isso eu atiro.