Depois do Jesus histórico fico só pensando como seria a Maria histórica.
Todo mundo que tem um mínimo de senso religioso sabe que Deus jamais colocaria seu filho numa mulher feia. Mas com os historiadores não tem essa, eles são muito mais punk-rock-hardcore e o negócio deles é a realidade real dos fatos. Para a História histórica, o Deus histórico escolheria uma Maria miúda, cabocla, feinha, uma espécie de Zabé da Loca.
Já a Maria Madalena histórica imagino que seria parecida com a Regina Casé. Quem sabe até descubram que a Maria Madalena era na verdade um travesti: Maria Madalena, prostituta e rainha do deserto. Descobrirão os anjos históricos? O Espírito Santo de Deus histórico?
A História histórica quer desmoralizar a Bíblia enchendo o livro sagrado de gente feia e histórica. É pra isso que serve a História: pra trocar as fotos bonitas e legais dos livros por fotos feias e sem nenhuma graça. Querem estragar tudo com a feiúra histórica.
Esse tipo de gente que argumenta que Iracema não tinha lábios de mel, tinha era um bafo do inferno porque índio não escova dente, essa gente ainda vai chegar no Star Wars histórico, O Rei do Gado histórico e Pedro Bial histórico.
Quando chegar a vez das histórias infatis históricas, vão revelar que a Rapunzel histórica usava peruca. A Chapeuzinho Vermelho histórica tinha caspa porque nunca tirava seu chapeuzinho e Bela Adormecida roncava que parecia um trator na subida. O saci já está de bom tamanho, é histórico por natureza: preto, aleijado, fumante e ladrão.
Saio da vida para entrar na Ciências Sociais.
Saio da vida para entrar em Osasco.
Saio da vida para entrar num Del Rey.
Saio da vida para entrar no SESC.
Saio da vida para entrar numa caixa de comentários.
Adaptaram Kinsey para o cinema. Muito evoluído adaptar um relatório para o cinema, e importante, afinal a ciência deve ser divulgada.
Logo vão adaptar doutorados e teses de iniciação científica. Depois bula de remédio. E aí veremos filmes como Anador, com Angelina Jolie no papel da dipirona; e veremos Russel Crowe numa brilhante interpretação do paracetamol em Buscopan.
Chegará o dia em que a indústria de cinema será controlada pelos laboratórios de remédio –e o cinema nacional se orgulhará da produção de genéricos.
Sempre achei a idéia de vender comida boa idéia, depois que aprendi a fazer chili ainda mais. Veio o desemprego e pensei em vender chili na Paulista, de chapéu de mexicano e bigode gigante postiço, não fiz. Tive medo de ser atacada pelo clã dos yakissobas voadores, afinal o monopólio gastronômico da região é dos chineses sujos.
Nas minhas tardes de desempregada sofistiquei a idéia do comércio de comida, o ócio e o meu mexicanismo fizeram a flor de obsessão da vez: abrir o restaurante Dona Florinda.
O chili continuaria sendo o carro-chefe, mas o cardápio teria outras atrações. Para lanches rápidos, o sanduíche de presunto do Chaves: sanduíche de presunto de salame, sanduíche de presunto de ricota, sanduíche de presunto de hambúrguer, sanduíche de presunto natural. Para refeição mais completa, o PF do seu Madruga. No dia 29 de todo mês, o nhoque da fortuna do seu Barriga. Aos domingos, frango assado à dona Clotilde.
Sobremesas: churros; os bolos confeitados da Bruxa do 71, de baunilha e chocolate; o óbvio pirulito da Chiquinha.
No cardápio de bebidas os refrescos de água de chuva do Chaves, nos sabores originais: limão que parece de tamarindo e tem gosto de groselha, tamarindo que parece de groselha e tem gosto de limão e groselha que parece de limão e tem gosto de tamarindo. Café prof. Girafales e chá seu Jaiminho. E claro, a caipirinha do Madruga.
O Dona Florinda já é meu sonho de infância. Um dia, um dia...
Zagueiro argentino reclama e corintianos comemoram.