“A coisa toda começou quando eu tinha cinco anos de idade. Durante uma brincadeira, fui empurrada por uma prima e caí de boca no carpete da sala da minha avó. Naquela época todas as casas tinham carpete.
Eu me lembro perfeitamente da cena: minha prima de cabelos curtos me empurrando com vigor e a minha boca encontrando a superfície de pêlos, áspera e macia ao mesmo tempo. Jamais me saiu da memória a dor e a delícia daquele raspão.
Anos mais tarde, infeliz no amor e insatisfeita no sexo, eu ainda me lembrava com carinho do episódio do carpete. Quando eu estava triste, era o carpete castanho que me voltava à memória, o carpete castanho, meu lábio esfolado e a língua cheia de pêlos. Não entedia porque esta cena tinha tanto significado pra mim.
Foi então que eu conheci a Teca. Quando eu vi a Teca eu pensei: “Nossa, como é parecida com a Ari.”, a Ariane minha prima, a que me empurrou no carpete. Então, vi a Teca, lembrei da Ari, a Teca foi se aproximando, lembrei do carpete, e aqui tô eu, feliz da vida com a Teca. A Teca é tudo pra mim, ela me fez descobrir porque aquele carpete marcou tanto a minha vida.”
Sexta-Feira Santa, dia de pagode, pensam meus vizinhos. E estão lá que batucam o dia santo desde as nove da manhã. São ateus? Duvido muito. Então só posso pensar que bebem o morto. E é certo que comerão carne.
Não sou pura, não penso mal dos meus vizinhos que sambam ao pé da cruz porque sou pura e cumpridora dos meus deveres cristãos; peco mortalmente todos os dias da minha vida. Mas ainda tenho uma porção carola que torce o nariz pra essa gente que promove samba no dia do calvário. Nem é pela Bíblia, é mais pela lembrança que tenho do dia santo. Esses que batucam desrespeitam a minha memória.
Fiquei pensando que isso do Cristo morrer todo ano está banalizando o fato. Ninguém mais se comove, recebem a noticia com naturalidade até: "Ah, já tinha lido na internet". Bem que o Vaticano podia anunciar que "Este ano o Cristo não morrerá". Aí no ano seguinte ficaríamos esperando pra ver se desta vez Ele morre. Quando morresse de novo ia ser aquela comoção, acho eu. Fiéis e infiéis passariam a desconfiar também da ressurreição. "Sei não, de uns anos pra cá O Homem não morre, agora morre. Será que ressuscita? Sei não". E desse jeito, na espera do incerto, íamos vivendo mais a Páscoa. Claro que a fé é certeza, mas com uma Igreja tão pra frentex por que não a incerteza a serviço da fé?
Eu que já vi o Cristo morrer mais de vinte vezes não me surpreendo muito mais. Fico triste com o desrespeito ao dia, mas já disse do meu egoísmo, é mais pelo desrespeito a minha memória do feriado santo – e uma lamentação por não conseguir mais fazer como antes.
Vivia com delícia os rituais do dia do Nosso Senhor Morto. Sacrifício e penitência eram novidades boas de experimentar. Avó e tias velhas sempre vigiando as correrias e alegrias desmedidas. E comíamos bacalhau, comida esquisita do dia do Cristo. Nem dava pra achar ruim, era a comida do Cristo, tadinho, mortinho da silva. Mais tarde íamos lá beijar a estátua do morto coberta pelo lençol branco, tão branco que deixava ver o sangue e as marcas dos pregos - era verdade que Ele tinha sido pregado. A Verônica cantava triiiiste. Os santos do altar cobertos de pano roxo, ninguém podia ver se estavam tristes.
Há séculos saeculorum amém que não vou à igreja, tenho dúvidas se ainda posso salvar minha alma, imagino que não. Pequei gravemente aos quatro anos de idade e desconfio que estou condenada desde lá. Achava, do fundo do meu coração, que quando, perto da benção final na missa, o padre dizia alguma coisa e a igreja respondia “Graças a Deus”, eu achava que eram graças de alivio porque a missa enfim estava acabando. Para mim era. Depois passei anos cantando "eu quero um rio de água viva, eu quero um sopro de esperança, minha alma segue e não se cansa de caminhar", cumprindo quaresma e confessando. De nada adiantou. Todo fim de missa eu continuava me aliviando no “Graças”. Mesmo assim, mesmo desenganada do céu, eu sinto saudade do tempo em que ficava comovida com a morte do Cristo. Tenho até a impressão que antes o Cristo morria mais bonito.
Dona Neosaldinha ia para a praia só para ver as crianças se queimarem. Ficava protegida do sol, só sonhando. Lembrando dos tempos em que os meninos mostravam pitus e ela mostrava o siri. Bons tempos o de dona Neosaldinha.
Gostava de crianças, mas estava velha e sentia muita dor nas costas.
"Criança é bom, mas dá dor nas costas", a amiga de barraca costumava dizer, inocente e alheia aos prazeres da mulher.
Sua velha tia Tertúlia, macaca véia no asssunto, já havia prevenido Neosaldinha:
"Aproveite das crianças enquanto tem idade para isso, depois dos 35 não se tem mais disposição física, e as pessoas começam a olhar feio pra você... Depois dos 35, pra quem ainda é vivo, só resta o balanço no capô de fusca...", suspirava, com os olhos cheios d'água e de lembranças do falecido Major e seu corcel cor de vinho.
Foi quando uma criança, um menino de uns quatro, cinco anos invadiu correndo a sala onde as duas conversavam e pulou ligeriro para o colo da tia Tertúlia. A criança, só de cuequinha do Bob Esponja, beijou e abraçou muito a velha dona.
Enquanto ia pra frente e pra trás na cadeira de balanço, com o garotinho no colo, tia Tertúlia dizia para a desanimada Neosaldinha:
"Mas ainda, mesmo para as velhas almas, ainda resta uma esperança. É quando nascem os netos."