novembro 4, 2004

Vendo voto. 6 anos de uso, bom estado, assinatura fácil.

Na última eleição ofereci meu voto para alguns conhecidos, ninguém quis comprar. Tentei o mercado negro e mesmo lá ninguém se interessou, estão tão politizados que não quiseram nem trocar por um cd pirata. Bom tempo aquele em que se podia vender o voto, não consegui nem um par de sapatos em troca do meu e ainda fui repreendida com argumentos democráticos de que o meu voto é direito, é decisão, meu voto é a minha arma. Ora, troco fácil por uma garrucha.
Não costumo ter fantasias eróticas com direito de voto e democracia, por isso acho a venda de votos um critério de escolha justo: o sujeito vota em quem pagar pelo seu voto, justíssimo. Eleitores costumam escolher seus candidatos por motivos bem mais idiotas e nada lucrativos. Votam porque o candidato torce pelo seu time de futebol, ou porque é aleijado, preto, mulher, porque pediu com jeitinho. E juram por Deus que não existe mais voto de cabresto. E eu não posso vender meu voto.
Se querem voto consciente, que exijam justificativa de voto para quem vota, não para quem não vai votar. Se o fulaninho faz questão de exercer seu direito de voto, que se explique na sua seção eleitoral, que confesse ao mesário os motivos do seu voto. Veriam que o voto é um ato obsceno, e a democracia, coitada, é tão feia que não deveria nem aparecer em público.
Se querem voto consciente, acabem com o sufrágio universal. As mulheres, por exemplo, já provaram que não sabem votar, ninguém sabe, mas mulher não sabe mais. Eu, até os meus 22 anos, votei em todo e qualquer barbudinho por causa de uma questão edípica mal resolvida -meu pai era barbudo quando eu tinha três anos de idade. A minha mãe, que não suporta perder, vota no candidato que está na frente nas pesquisas. Nós mulheres somos facilmente seduzidas, votamos no candidato bonzinho, no bonito, no coitado, escolhemos pela cor do partido. E além de não sabermos, votar é cafona, se alguém tem que praticar este ato de deselegância, que sejam os homens. Minha campanha é pela suspensão do sufrágio feminino. Nas próximas eleições quero ser impedida de votar por incapacidade de gênero, já que não posso vender meu voto.

Posted by Colorina at 6:41 PM

novembro 1, 2004

Profecia

E disse Freud, coçando sua barba branca com cara safada e envolto em fumaça de charuto: “Em todo lugar onde três ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, o gordinho que usa barba à minha maneira e que adora parecer descontraído, esse gordinho contará a piada do castelo”.E assim é.
Onde quer que se reúnam psicanalistas e afins, entre eles estará o gordinho instrumento de Freud, o profeta da piada do castelo. Quando ele chega, os psicanalistas mais perspicazes já o reconhecem, comentam em sigilo: “Ali o gordinho da profecia”. E depois do meio, lá pelo fim da reunião, quando o gordo da barda de falso Freud sente o momento exato da descontração, mexe-se com dificuldade na poltrona onde está encalhado, consegue assumir mais ou menos uma posição de quem vai falar e começa:
- Sabem a diferença entre o neurótico, o psicótico e o psicanalista?
Os outros trocam olhares de lá vem o chato da piada do castelo, mas em seguida lembram-se da profecia, substituem a cara de contrariedade por uma mais sublime (sabe aquela cara meio apertadinha de sublime?) e respondem ao gordo como quem reponde ao sagrado: “Não, qual é?”.
O gordo profeta continua, fazendo esforço para sustentar-se ereto na poltrona: “O neurótico constrói castelos no ar, o psicótico mora neles.”, interrompe estrategicamente a piada esperando a interatividade. A magrinha ansiosa dá a deixa: “E o psicanalista?”. “O psicanalista cobra o aluguel.”, solta uma gargalhada exagerada e desaba na poltrona, a barba úmida de suor.
Os demais sorriem apenas, sorrisos de ternura para o gordo porque acham bonito seu esforço em cumprir a profecia, sorriem de satisfação porque foram agraciados pelo momento sagrado da piada do castelo. E olham com amor para o infalível retrato do Freud na parede, onde quer que eles estejam.

Posted by Colorina at 4:55 AM