junho 28, 2004

O Último Samurai

Tenho saudade do tempo que seus olhos calmos me olhavam com vontade, se demoravam em mim.
Tenho raiva desse tempo. Seus olhos aflitos mal me tocam, por certo que não me reconhecem, eles não me vêem.
Seus olhos apressados que esbarram em mim e o seu beijo burocrático que me dói na boca.
Culpo o tempo porque é irresistível. Ele se presta bem ao papel do maldito que carrega a destruição, em silêncio. Mas não é verdade, o tempo é inocente do nosso fim.
Aconteceu como em alguns filmes que fazem hoje em dia, vai acabando, acabando e acaba. Discreto, previsível até; não veio espalhafatoso, tropeçando em nossos pés, gritando alto e fora do tom.
E eu até gosto que seja assim, uma bossa triste cantada em voz serena. Essa falta da apoteose última me mostra que o fim não é mais importante que tudo nosso que veio antes.

Posted by Colorina at 10:04 AM

junho 27, 2004

Ossos do Ofício

Eu trabalho num hospício. Hospício é um lugar que gera curiosidade e fascínio e sei lá mais quê nas pessoas que nunca entraram em um.
Quando revelo o lugar onde trabalho, tenho, quase sempre, que conferenciar sobre como é, quem vive lá, o que exatamente eu faço, se é perigoso, se não tenho medo, se não vou ficar louca lá dentro. Às vezes falo direitinho, às vezes pelas metades, depende do saco e também de quem especula.
E no meio das minhas redações do tipo 'Meu Hospício', fico buscando por uma imagem perfeita, suficiente em si para explicar o lugar e que me poupasse falatório. Mas é difícil, nunca funciona.
Não dá, por exemplo, pra dizer: "Sabe açougue? Então, é igual açougue." Ou: "Já foi pro Paraguai? É mesma coisa que ir por Paraguai." Porque o chico-especula é sempre concretão e sempre pergunta mais: "Mas tem carne?"; "Tem muito paraguaio lá?".
O tiro da imagem retórica sempre me sai pela culatra e tenho que ficar explicando mais e mais: "Usei açougue porque é uma imagem forte, os filmes brasileiros sempre apelam pra ela e tal."; "Não, não. Até simpatizo com Paraguai. Só achei que representava, foi só isso, força de expressão, entende?" Não, não entende.
Agora mesmo achei uma imagem muito boa, não vou poder usar com os concretões, também porque eles não costumam ter vida virtual, mas eu adoraria dizer:
- Sabe internet? Sabe blogue? Tá ligado os Wunderblogs? O Alexandre Soares Silva, sabe? A caixa de comentários dele? Então, é aquilo lá. Sem o menor nexo, bagunçado do mesmo jeito; com mais gente, numa rotação mais acelerada e também com cheiro, ruim a maior parte das vezes, mas basicamente é aquilo lá. O hospício é a caixa de comentários do Alexandre Soares Silva ao vivo.
- Ah, tá.

Posted by Colorina at 10:17 AM

junho 25, 2004

Windows, esse vendedor de enciclopédia

Detesto quando o Windows resolve se mostrar útil, prestativo. Eu tô lá transitando, entro aqui, entro ali, saio de lá, coisa e tal; e aí o Windows começa a falar comigo feito um camelô de praça:
- Viu, o Windows pode criar tal pasta, se tiver interessado clica aqui.
Pode reparar isso, recuperar aquilo, corrigir erro nesse ou naquele arquivo... E vai falando, mais que o homem da cobra.
E a correção ortográfica do Word* ? Como fala, gente! Não adianta dizer pra ela ignorar a sentença, ainda assim ela vai palpitar:
- Será que não seria melhor escrever desse jeito, botar uma vírgula aqui e inverter a ordem da frase?
No começo eu deixo o Windows falar, porque, coitado, eu entendo ele como um primo mais novo que fica me mostrando tudo o que ele aprendeu a fazer desde a última vez que encontrei com ele, seis meses atrás. Mas depois eu começo a me irritar:
- Tá bom, já sei que você é um menino inteligente, agora me deixa trabalhar um pouco. - falo com voz branda e tal, mas falo.
Só que ele continua. Respiro fundo, coitado!
É aquela amiga prestativa, sensível, que nem é tão íntima assim mas quer me ajudar a resolver tudo na minha vida. Então acontece alguma coisa e eu fico triste, tô sofrendo e tal mas tô indo, tô levando; só que ela me liga a cada meia hora, incluindo a madrugada, pra perguntar como é que eu estou e o que ela pode fazer por mim. A vontade é de abrir o jogo:
- Escuta, filhinha, você gosta de saber que eu estou sofrendo, né? Fala a verdade.
Mas respiro fundo de novo, tadinha, tão bem intencionada... Digo com voz forjadamante melada:
- Está tudo bem, querida. Obrigada por se preocupar. Agora eu vou dormir, amanhã eu te ligo, tá?
Mas o Windows insiste, a insistência do feirante do Ceasa. Nessa altura do campeonato já está ridículo, humilhante pra ele, eu começo a ficar com pena.

O Windows se transformou na minha avó e, tal qual ela, fica oferecendo janelinhas, como se fossem as guloseimas que ela me oferece sem parar, mesmo quando eu não tô com fome:
- Quer goibada?
- Não, vó, brigada.
Ela anda até a cozinha:
- Tem queijo fresco, come com goiabada.
- Não, vó, valeu.
Ela rodeia a minha cadeira.
- E bolo de fubá?
- Vó, tô satisfeita, depois eu como.
- Tá.
Ela faz um esforço enorme pra ficar quieta mas não consegue:
- Quer que eu faça bolinho de chuva? Bolinho de chuva você gosta.
- Vó do céu, eu não quero nada, tô cheia. Quando eu tiver com fome eu falo!
Aí ela faz bico, senta no sofá e começa a fazer crochê rapidinho. Certeza que ela pensa nessa hora o quanto eu sou ingrata, que ele tá só preocupada comigo, que me achou magrinha demais... o quanto fiquei sem educação depois que cresci e por aí vai.
Ela levanta os olhos do crochê:
- E pão feito em casa, quer um pedacinho?
Ah, não! Ele continua...
Depois de tanto tempo de incessante insistência em se meter na minha vida, eu já tenho com o Windows a intimidade que eu tenho com a minha mãe, e aí eu grito. Grito porque ela é minha mãe e pode e tem que entender porque eu estou gritando, além do mais, ela pediu por isso.
- ADRIL...
Não, não era esse o grito. Agora vai:
- SAI DAQUI! ME DEIXA.
Aí eu fecho com força todas as janelinhas que o Windows abre pra falar comigo, como se tivesse batendo a porta na cara dele.
Mas é perigoso fazer isso, porque aí ele começa a perseguir e a pagar de misterioso:
- O Windows viu que você fez a operação 203.
Passa um tempinho:
- Agora você abriu a porta 456.
Até chegar ao famoso erro fatal. E aí ele se vinga bonito: fecha o programa na minha cara.
Eu, com a maior cara de bosta do mundo, constato que não adianta, eu preciso dele. Então vou até a cozinha, faço um café ou como um chocolatinho, engulo seco e pacientemente volto pra reiniciar tudo:
- Desculpa, eu me precipitei. Posso entrar de novo? - falo com voz muito meiga.


* Tinha uma professora da faculdade que fazia todas as correções gramaticais only e tão somente pelo corretor do Word. E a pesquisa acadêmica dela era feita no Google. Juro por Deus que ela digitava um termo específico da linha de trabalho dela e ficava fazendo estatística de quanto e explicando como tal termo apareceu no site de busca da internet. Inteligentíssima!

Posted by Colorina at 3:19 PM

junho 24, 2004

Deixa em paz meu coração

Nos últimos dias eu ando fugindo da minha consciência como o diabo da cruz. Mas não tem jeito, porque quando a consciência pesa, ela pesa. Aí te vira meu nego pra segurar a cabeça em cima no pescoço - acabo de notar que na ginástica para manter minha altivez, meu trapézio já aumentou uns dois centímetros.
E a minha consciência tem uma voz linda, bonita mesmo, e sedutora, voz de Leonard Cohen que me fala as maiores barbaridades e eu não tenho como deixar de prestar atenção. Fala rouquinho ao pé d'ouvido, dá até um arrepiozinho. Mas não é totalmente gostoso, é doído também. Um pouco gostoso, um pouco doído. Doce e ardido.
Felizes das mulheres de antigamente, que recebiam sua penitência em confessionários e expiavam suas culpas em oratórios. Felizes delas que, no máximo do seu infortúnio, carregavam lata d'água e trouxa de roupa na cabeça; se dessem sorte era só chapéu e laço de fita.
Dá-me um chicote.


Posted by Colorina at 5:21 PM

junho 20, 2004

Wunderbook

A qualidade do livro eu não garanto. Tenho dúvida se são bons autores ou se são só rostinhos bonitos na internet.
De qualquer forma, vale conferir ao vivo todo charme, elegância, sesualidade e fofura dos irreverentes Wunders.
Ah, a capa do livro também é bonita.

deitadinha menor.jpg

Presença de pin-ups.

Posted by Colorina at 12:31 PM

junho 17, 2004

A essência feminina

mulher na cozinha.jpg

Para feministas, puritanos, pervertidos sexuais e afins.

Posted by Colorina at 6:12 PM

junho 15, 2004

Vamos ver como é que você entende a vida

Teste II: Sobre as mulheres.

Você acha que a mulher:

a) Já nasce pra morrer de amor mas finge o orgasmo;

b) Quer ser amada, quer ser feliz, é meio Leila Diniz coisa e tal, mas, na verdade, é uma cínica (no sentido rodrigueano do termo) e adora uma boa bofetada;

c) Não existe. As mulheres são homens que o tempo todo se travestem dos clichês femininos: a mãe, a santa, a prostituta, a faxineira, a comissária de bordo, a capa da Playboy, a mocinha do balcão e a Dercy Gonçalves;

d) Tem o diamante por melhor amigo mas está sempre conversando com o vizinho fortão;

e) Ou Amélia é que era mulher de verdade porque a tal da Aurora, de sincera, não tinha nada.

Posted by Colorina at 7:20 AM

junho 13, 2004

Cachorrinho samba na fazenda

Meu cachorro é muito inteligente, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci.
Além disso ele é chique, bitelo e elegante. Aristocrata e reprodutor.
Tem ótimo senso estético. Saímos para uma caminhada e ele me conduziu a um lindo campo de folhas secas, em volta o verde de laranjeiras sem flor, em cima o céu de azul nítido do outono. O vento brincalhão fez um redemoinho das folhas e meu cachorro, elegante e hedonista, bailou com a espiral de vento sob o céu outonal de azul nítido.
Notem que disse que o vento era brincalhão, não o meu cachorro. Também não disse dele lambão nem sapeca, que não são adjetivos para o meu cachorro de feição pedante e que me agrada com paisagens e poses ao invés de macaquices e lambidas.
Eu e o meu cachorro na solidão do campo de folhas secas.

Posted by Colorina at 6:53 PM

junho 12, 2004

Sabedoria de vida

Foi o ancião da porteira quem me revelou:
"Nóis labuita que labuita e nunca que possói nada."

Posted by Colorina at 9:58 PM

Meu tema para o Dia dos Namorados

Raulzito é que sabia das coisas.
O amor não é sofisticado. É cafona e safado.

****

Tu és o grande amor da minha vida
pois você é minha querida
e por você eu sinto calor
aquele teu chaveiro escrito love
ainda hoje me comove
me causando imensa dor

eu me lembro do dia em que você entrou num bode
quebrou minha vitrola e minha coleção de Pink Floyd
eu sei que eu não vou ficar aqui sozinho
pois eu sei que existe um careta, um careta em meu caminho

ah, nada me interessa nesse instante
nem o Flávio Cavalcanti
que a teu lado eu curtia na tevê
nessa sala hoje eu peço arrego
não tenho paz nem tenho sossego
hoje eu vivo somente a sofrer

e até o filme que eu vejo em cartaz
conta a nossa história, e por isso eu sofro muito mais
eu sei que dia a dia aumenta o meu desejo
e não tem pepsi cola que sacie a delícia dos teus beijos

ah, quando eu me declarava você ria
e no auge da minha agonia
eu citava Shakespeare
não posso sentir cheiro de lasanha
me lembro logo das Casas da Banha
onde íamos nos divertir

e hoje o meu Sansui Garrard Gradiente
só toca mesmo embalo quente pra lembrar o teu calor
então eu vou ter com a moçada lá no pier
mas pra eles é careta se alguém, se alguém fala de amor

na faculdade de agronomia
numa aula de energia
bem em frente ao professor
eu tive um chilique desgraçado
eu vi você surgindo ao meu lado
no caderno do colega Nestor

e é por isso, é por isso que de agora em diante
pelos cinco mil alto falantes
eu vou mandar berrar o dia inteiro que você é
o meu máximo denominador comum.

Posted by Colorina at 9:45 PM

Para Ana Luíza

Feliz Aniversário!

girafa.jpg

Posted by Colorina at 1:54 PM

junho 10, 2004

Vamos ver como é que você entende a vida

Diante do inevitável você:

a) Senta e chora;
b) Ajoelha e reza;
c) Deita e rola;
d) Finge-se de morto;
e) Depende do seu humor no dia.

Posted by Colorina at 2:15 PM

junho 6, 2004

Diagnóstico:

O cinema nacional sofre de Síndrome de Tourette.

Os filmes são seqüências compulsivas de tiques, caretas e palavrões.

Terapêutica: não há terapêutica eficaz para a Síndrome de Tourette. O tratamento consiste em ministrar algum medicamento para diminuir os sintomas, associado a orientações comportamentais, que servem mais para evitar o comprometimento da vida social de quem é acometido pela síndrome.
Para as pessoas que convivem com paciente de Tourette, a principal recomendação é não reprimir, corrigir ou rir da pessoa durante a sua crise; o ideal é orientar para que se recolha em ambiente privado a fim de evitar exposição durante a sessão de coprolalia e contratura exagerada face.
A síndrome de Tourrette inicia-se predominantemente na infância e início adolescência. É esperado que os sintomas diminuam com o passar dos anos, podendo chegar à remissão total.

Então, cinema nacional, vai pro seu quartinho, vai. Lá dentro você fica mais seguro, aqui fora as pessoas podem rir de você, podem se ofender com seus palavrões e vão querer te machucar. Lá dentro você pode fazer tudo o que quiser. Lá dentro, aqui fora não, por favor.
Não, não me xingue assim, é pro seu bem, eu garanto, confie em mim. É só até você envelhecer um pouquinho. Envelhece que eu juro te chamo quando você estiver pronto pra sair.

(Fecho a porta com muita dificuldade, passo a chave e encosto esbaforida do lado de fora. A porta agora é esmurrada com força e tem início a sessão de palavrões. Mas já está melhor, só o áudio já é bem melhor do que áudio e vídeo, pelo menos não tenho que ver as caretas. Amanhã eu penso num jeito de fazer o isolamento acústico.)

Posted by Colorina at 12:33 PM

junho 2, 2004

Advertência

Acabei de escrever um texto acadêmico. Estou mortalmente ferida em meu estilo.
Advirto que no próximo post eu posso querer estar escrevendo tempos verbais compostos com mais de quatro verbos. Perdoem-me.
Perdoem nada. Xinguem-me!

Posted by Colorina at 9:47 PM

Crônica de Uma Morte Anunciada segundo a ótica caolha da literatura-realidade; ou Aqui o Sistema é Bruto

(Caolha porque teve um olho arrancado a canivete por um seqüestrador de caixa-eletrônico num banco Nossa Caixa em Jandira.)

No dia em que iriam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às cinco da manhã para trabalhar no matadouro municipal como fazia todo santo dia.
Estava ainda com muito sono e ressacado do samba da noite anterior. Deitou-se de novo e resolveu dormir mais, faltaria ao trabalho. Hoje seu estômago não iria suportar tanto cheiro de sangue - e também não agüentava mais aquele patrão explorador.
Passou o dia toda na cama, dormiu mal, não sonhou nada nem comeu ninguém.
Acordou só às seis da tarde, com a cabeça latejando. Sentiu um cheiro familiar que o nauseou, soergueu-se em seu catre para vomitar. Foi quando percebeu que estava ensopado de sangue.
Olhou para baixo e se viu todo estropiado, rasgado de faca, com o bucho de fora.
Só teve tempo de gritar:
- Que porra é essa?!

Posted by Colorina at 5:48 PM

junho 1, 2004

De todas as graduações eu prefiro a alcoólica

Hoje fui buscar meu diploma na faculdade. Agora sou formada e tenho até diploma para mostrar. Grande!
Pena que eu não tenho mais avó, se tivesse daria o diploma pra ela pendurar na parede. Uma moldura em ouro-velho e dá-lhe depromão na parede. Bem ao lado do diploma do pré-escola, tão miúdo.
Me corta o coração a ingenuidade do diploma do pré. Se bem que eu o prefiro mil vezes, muito mais faceiro com moldura de bambu envernizado. E tem a fotinho na beca vermelha de mentira, com cara de orgulho sincero de quem sabe o valor de se formar no pré.

Tudo o que eu precisava saber eu aprendi na pré-escola.

Posted by Colorina at 7:35 PM