março 25, 2005

Coisas de Laurinha

Sexta-Feira Santa, dia de pagode, pensam meus vizinhos. E estão lá que batucam o dia santo desde as nove da manhã. São ateus? Duvido muito. Então só posso pensar que bebem o morto. E é certo que comerão carne.
Não sou pura, não penso mal dos meus vizinhos que sambam ao pé da cruz porque sou pura e cumpridora dos meus deveres cristãos; peco mortalmente todos os dias da minha vida. Mas ainda tenho uma porção carola que torce o nariz pra essa gente que promove samba no dia do calvário. Nem é pela Bíblia, é mais pela lembrança que tenho do dia santo. Esses que batucam desrespeitam a minha memória.

Fiquei pensando que isso do Cristo morrer todo ano está banalizando o fato. Ninguém mais se comove, recebem a noticia com naturalidade até: "Ah, já tinha lido na internet". Bem que o Vaticano podia anunciar que "Este ano o Cristo não morrerá". Aí no ano seguinte ficaríamos esperando pra ver se desta vez Ele morre. Quando morresse de novo ia ser aquela comoção, acho eu. Fiéis e infiéis passariam a desconfiar também da ressurreição. "Sei não, de uns anos pra cá O Homem não morre, agora morre. Será que ressuscita? Sei não". E desse jeito, na espera do incerto, íamos vivendo mais a Páscoa. Claro que a fé é certeza, mas com uma Igreja tão pra frentex por que não a incerteza a serviço da fé?

Eu que já vi o Cristo morrer mais de vinte vezes não me surpreendo muito mais. Fico triste com o desrespeito ao dia, mas já disse do meu egoísmo, é mais pelo desrespeito a minha memória do feriado santo – e uma lamentação por não conseguir mais fazer como antes.
Vivia com delícia os rituais do dia do Nosso Senhor Morto. Sacrifício e penitência eram novidades boas de experimentar. Avó e tias velhas sempre vigiando as correrias e alegrias desmedidas. E comíamos bacalhau, comida esquisita do dia do Cristo. Nem dava pra achar ruim, era a comida do Cristo, tadinho, mortinho da silva. Mais tarde íamos lá beijar a estátua do morto coberta pelo lençol branco, tão branco que deixava ver o sangue e as marcas dos pregos - era verdade que Ele tinha sido pregado. A Verônica cantava triiiiste. Os santos do altar cobertos de pano roxo, ninguém podia ver se estavam tristes.

Há séculos saeculorum amém que não vou à igreja, tenho dúvidas se ainda posso salvar minha alma, imagino que não. Pequei gravemente aos quatro anos de idade e desconfio que estou condenada desde lá. Achava, do fundo do meu coração, que quando, perto da benção final na missa, o padre dizia alguma coisa e a igreja respondia “Graças a Deus”, eu achava que eram graças de alivio porque a missa enfim estava acabando. Para mim era. Depois passei anos cantando "eu quero um rio de água viva, eu quero um sopro de esperança, minha alma segue e não se cansa de caminhar", cumprindo quaresma e confessando. De nada adiantou. Todo fim de missa eu continuava me aliviando no “Graças”. Mesmo assim, mesmo desenganada do céu, eu sinto saudade do tempo em que ficava comovida com a morte do Cristo. Tenho até a impressão que antes o Cristo morria mais bonito.

Posted by Colorina at março 25, 2005 8:49 AM