Parte IV: A aceitação
- Se me permite um comentário, o seu projeto de inferno-piloto está muito bom, logo vai estar melhor que o original.
- É a intenção.
- Eu queria só saber o que eu fiz pra merecer ser jogada lá.
- Em primeiro lugar, não é jogada, é designada. Quanto ao porquê, ele é o meu maior mistério. Mas não se preocupe tanto, talvez nem tenha feito nada.
- Aí que me revolto mesmo. Se ainda fosse para pagar pecado, ficaria mais fácil me conformar. Mas sem um porquê...
- O porquê, o bendito porquê. Todo mundo encasqueta com esse porquê.
- Claro, queria que a gente aceitasse de pronto? Mansidão tem limite, lord. A sua não?
- Não, acho que não.
- Mas no seu caso é bem mais fácil, ninguém te impõe nada.
- A vantagem dos altos cargos.
- Não vai mesmo falar o porquê?
- Porque sim. Porque eu quis.
- Assim, de graça? Desse jeito vou ser obrigada a desconfiar da sua bondade.
- Eu tenho os meus motivos, é só isso o que você precisa saber.
- E depois dizem que aquela história de testar o pobre do Jó foi idéia do satanás. Sei não.
- Menininha, já ta extrapolando de novo, né?
- Por falar em menininha, eu vou descer homem ou mulher?
- Mulher mesmo.
- Sabia! Faz parte do carma, pacote completo.
- Que revolta mais boba. A mulher é umas das coisas mais belas que eu criei. Dei à mulher o poder de gerar vida...
- Tá, tá, já sei o texto todo, concordo. Não tô levantando nenhuma polêmica sexista, foi só um pensamento baixo.
- Qual?
- Esquece. Pensei uma coisa nojenta.
- Fala.
- Xá pra lá.
- Fala, ué. Preciso saber de tudo.
- Já pensou o que é ficar menstruada no calor?
- Hahahahaha. Que horror!
- Falei que era nojento.
- Deve ser mesmo, foi um erro grosseiro, prometo que vou tentar consertar. Mas vai, te apressa que eu já vou te descer.
- Deixa eu ficar, eu fico aqui quietinha, juro.
- Não.
- Faço ambrosia todo dia.
- Não. Nem sou eu que gosto de ambrosia, são outros caras aí.
- Então deixa eu levar alguém comigo, pra ser cúmplice da mesma existência.
- Não. Que coisa! Não sabe ouvir um não? Não é não.
- Mas é que eu gosto tanto daqui.
- Você acha que eu crio as minhas almas para ficarem aqui, na barra do meu manto?
- Não, o senhor cria pra jogar nos seus maravilhosos projetos-pilotos.
- Filha, se eu estou te mandando é porque eu sei que você agüenta.
- Detesto quando o senhor fala como um gerente de recursos humanos: “estamos te transferido porque sabemos que você ficará melhor nessa nova função”.
- Mas eu sou o maior gerente de recursos humanos do universo.
- É verdade, se tem uma coisa que o senhor é, é isso.
- Mas me dá cá um abraço. Não faz essa carinha, você vai se divertir, prometo.
- Pelo menos dizem que a vida passa rápido.
- Alguns têm mesmo essa impressão.
- Uma última coisa, deixa eu lembrar do senhor enquanto estiver lá?
- Lembrar não, vai ter que acreditar. Fé!
- Juro que eu não entendo esse seu capricho.
- Tá bom, minha ranheta, te mando umas lembrancinhas daqui de cima enquanto você estiver lá embaixo. Mas cuidado com a cabeça.
- Palhaço!
- Você ainda não me viu bravo.
- Nem quero ver. Se bonzinho assim já me manda pruma dessas...
- Vai, vai que eu quero te descer antes do almoço.
- Condenada e sem direto à última refeição?
- Nada de refeição. Senão a gente fica adiando, depois do almoço o cafezinho, aí uma descansadinha e nunca que chega a hora. Vou te descer é agora.
- Tchau, então.
- Tchau, minha menina, até mais.
- Lá vou eu. Que cruz, meu deus!
- Quê?
- Nada, não é com o senhor não, é com o retórico.
- Ah o retórico! Preciso dar um jeito nesse cara. Com essa desculpinha aí foi que vocês deixaram de cometer o pecado de falar meu nome em vão. “Não, não estava pensando no senhor quando falei ‘meu deus!’. Era só um ‘meu deus’retórico”. Acho que vou começar a contabilizar como pecado também cada vez que falarem em nome do retórico.
- Ah, isso é uma coisa que eu queria te falar faz um tempo, aquela sua listinha de mandamentos tá meio caída, tá precisando dar um a atualizada nela. Na dos pecados também.
- Cê acha mesmo?
- Acho. Ninguém mais liga pra aquilo. Isso sim que ficou retórico, literatura, uma palavra atrás da outra. É isso que fizeram da sua palavra, li-te-ra-tu-ra.
- Valeu pela dica. A partir de agora vou castigar também quem escrever meu nome em vão.
-Não, não! Não é isso! Não precisa castigar ninguém, é só se dar mais respeito. Tem que melhorar a sua altivez, lord. Uma pessoa não pode pensar que a palavra de Deus é a mesma coisa que um livro do Zuenir Ventura.
- Tem razão, minha moral tá abaixo da Zíbia Gaspareto. Respeitam mais o espírito do Lúcio do que os meus evangelistas.
- Então, deixa eu ficar pra te ajudar nessa parte, ser sua assessora de imprensa, que tal?
- Não, não, não. Quem sabe na volta.
- Ok, desisto. O senhor venceu.
- Vai, se anima que você tem uma vida inteira pela frente.
- Infame!
- Adoro dizer isso, é o meu bordão predileto.
- Eu prefiro o do Paulo Silvino.
- Vai, vai com deus.
- Com quem?
- O retórico, o retórico. Maldito retórico! Ainda vai me desbancar.
FIM
Posted by Colorina at setembro 12, 2004 1:30 PM