setembro 9, 2004

A conversa que eu tive com Deus antes de ele me mandar pro inferno

Parte III: A diversão

- Escuta, e o que eu vou fazer pra me divertir nesse lugar?
- Ah, muitas opções. Todo sábado te convidarão para uma feijoada ou para um churrasco.
- E eu não vou, porque vai ter mau gosto assim no inferno. E que burros! Feijoada, caipirinha e churrasco num lugar de altas temperaturas? Nada mais inapropriado.
- Lá é o inferno. Piloto, mas é inferno.
- O senhor não tá exagerando, não? Essa coisa de feijoada e caipirinha, churrasco e pagode é meio folclórica, acho que ninguém faz isso de verdade.
- Pois é, eu também me assustei, imaginei que não fizessem, fazem sim. E juro que não foi nada programado, foi um aspecto espontâneo do meu inferno-piloto, eu dei o livre-arbítrio e as pessoas de lá usaram desse jeito. Acabaram mesmo ficando folclóricas, bem típicas do lugar, você vai ver, são do jeitinho daqueles estereótipos tropicais que descrevem por aí.
- Mas todo mundo igual?
- Não, não, a maioria. Tem as variações. Os intelectuais-culturais, por exemplo, são de uma espécie diferente da dos tropicais.
- Pelo nome já vi que vou ficar entre a cruz e a caldeirinha: tropicais do samba x intelectuais da cultura, páreo duríssimo. Mas conta, como é que são os intelectuais-qualquer-coisa?
- Os intelectuais-culturais? Ah, são, são... são intelectuais, ué. E gostam de cultura.
- Grande descrição! Não dá pra explicar melhor? Quer fazer desenhinho pra ficar mais fácil?
- Você não me perdoa, não é? Não posso errar uma.
- Mas como é que eu posso esperar erro vindo da vossa perfeição? E se eu for considerar que o senhor erra, o que eu vou esperar do resto?
- É...é difícil atender às suas expectativas a meu respeito.
- E eu nem sou das mais exigente. Mas o senhor tem que concordar, vindo do senhor não dá pra esperar nada menos do que divino.
- Acho que eu te dei liberdade demais, menininha, não se fala uma coisa dessas pra mim.
- Mas o senhor, tão vaidoso, deveria ficar feliz. Estou te chamando de perfeito.
- Mas eu sei que eu não sou.
- Vixe! Mexi na feriada narcísica. Desculpa, nem sabia que o senhor tinha uma.
- Pois eu tenho, bem maior e mais sensível que a sua.
- Quer dizer que aquela história da perfeição...
- Vamos deixar isso pra lá.
- Ok, my lord, não precisa fazer essa cara de desolado. Falemos dos culturais.
- Na verdade, estou com medo de te descrever os intelectuais-culturais, acho que você vai me odiar por eles existirem.
- Pense pelo lado bom, chocada por chocada eu já estou demais com essa história aí da sua imperfeição. E nem por isso eu te odeio. Não é um tipinho terreno qualquer que vai me fazer te odiar, mesmo que tenha sido idéia sua.
- Obrigado por ser tão misericordiosa comigo. Diante de tanta condescendência para com a imperfeição de um deus me sinto até mais encorajado pra falar.
- Então fala logo porque eu não sou nada divina e já estou me roendo de curiosidade.
- Bom, intelectual-cultural é um tipo de gente que gosta de vestir gola rolê e tomar vinho Chapinha, tomar não, eles apreciam um Chapinha enquanto discutem filmes de arte, literatura de Fuvest e lamentam a falta de uma política de incentivo à cultura. Ou então fazem uma roda de violão pra cantar MPB em coro enquanto se olham nos olhos e sorriem cúmplices, irmãos na cultura nacional. Alguns lacanianos, muitos antiimperilistas, meia dúzia que acha que é artista...
- Chega, tá bom já. Prefiro os típicos, os nativos. Me deixa no meio dos nativos, comendo banana e sambando debaixo do sol.
- Hahahaha. Imaginei mesmo que fosse preferir.
- Elementar, meu caro. O senhor errou feio com esse tipo intelectual. Foi livre-arbítrio também?
-Não, pior que não, eu mesmo fiz. Foi uma tentativa de dar um charme pro lugar. Mas eu só dei o espírito cultural, o vinho ruim e a gola rolê é por conta deles.
- É, definitivamente o senhor é falível. Mas sabe que valeu pela piada? O senhor pode não ser perfeito, mas que tem senso de humor, ah, isso tem. E depois, é um bom tipo para um projeto de inferno.
- E não é? Mas não se preocupe, você se sairá bem. Saberá escolher com quem conviver e te darei a sorte de encontrar pessoas muito agradáveis, que tornarão a sua existência mais leve, mesmo no calor.
- Que bom! Até me alegro. Dou até um sambadinha...e de ponta de pé. Assim que eles fazem?
- Acabei de me convencer que eu erro. Tenho que admitir, com você exagerei na ironia.
- Pelo menos eu não uso gola rolê. E eu te divirto, não é verdade?
- Ô! Ainda bem que a minha paciência é infinita.

(continua)

Posted by Colorina at setembro 9, 2004 6:34 PM