Aqui no interior, nós temos um tipo muito característico: o tiozão de calçada.
O tiozão de calçada é aquele homem sem charme algum, tem entre 47 e 59 anos e trabalha há trinta como representante comercial da mesma firma. Mudou de emprego uma única vez, quando foi despedido do escritório de despachante.
O comportamento típico do tiozão de calçada é, todo fim de dia, quando chega do serviço, arrastar sua cadeira de cordinha para a calçada e sentar-se na calçada. Ele fica ali apreciando o movimento enquanto a mulher faz a janta e fala no telefone com a irmã.
Nos fins de semana é diferente, o tiozão de calçada passa o dia inteiro na calçada. Só sai dali pra trocar uma resistência de chuveiro ou a borrachinha da torneira da pia que está pingando. No sábado e domingo, o programa da calçada é acompanhado de uma cervejinha e um prato de torresmos, afinal, ele controlou o colesterol a semana inteira.
Embora seja visto mais sozinho, o tiozão de calçada tem amigos tiozões de calçada. Eles costumam se agrupar principalmente aos fins de semana, é quando três ou quatro dessa espécie se juntam e proseiam sobre temas que variam entre atualidades do futebol, fatos da vizinhança e questionamentos sobre o tempo. Importante: os tiozões de calçada não fazem fofoca.
O tiozão de calçada tem barriga proeminente, que tende a aumentar conforme a vida for passando por ele na calçada. Isso se a mulher não o arrastar para a caminhada, persuadindo-o com o argumento do médico da mãe, que diz que ficar muito sentado faz mal pro coração.
O tiozão é o maior adepto do figurino bermudão cáqui e camisa pólo ou de botão, numa cor sem graça e por dentro da bermuda; no pé, aquele mocassim sem meia fazendo conjunto com o cinto trançado. Mas quando está no seu habitat natural (a calçada), o tiozão costuma estar descalço, com os chinelos Samoa pousados ao lado da cadeira. Normalmente está sem camisa, se veste, ele a enrola acima da pança que é pra deixar o umbigo peludo de fora.
O tiozão de calçada tem costume de limpar a orelha com a unha crescida do dedo mindinho e, depois, limpar a unha num canto fino da cadeira de corda. Outro hábito corriqueiro é coçar o tendão-de-aquiles do calcanhar esquerdo com a forquilha formada pelo dedão e o segundo dedo do pé direito.
O nosso simpático tiozão de calçada tem seu lado garanhão de calçada, quando passa uma meninota jeitosinha, diz : “Que saúde, benza Deus! Se eu fosse novo. Ah se eu fosse mais novo...”
A maior ameaça para o tiozão de calçada é a crescente violência urbana e a insistência da mulher em se mudarem para um apartamento, que é mais seguro e menor, mais fácil de limpar. Por sorte, aqui em nossa cidade temos a Vila Tibério, que ainda é um reduto seguro para o tiozão, é quase um condomínio fechado para tiozões de calçada.
Depois do 59 anos, a aparência do tiozão de calçada muda e ele transforma-se no véião de calçada. O véião de calçada é um subarquétipo de evolução do tiozão, é quando os hábitos ficam mais requintados pelos anos de prática de calçada.
Aposentado, ele passa praticamente a viver na calçada. Inventa engenhocas que aumentam o seu conforto e permitem uma maior permanecia no seu ambiente preferido: almofadas que se ajustam à anatomia da cadeira, mesinhas adaptadas, apoio de garrafas e copos e o inseparável radinho de pilha alaranjado.
O véião de calçada resiste como ninguém às intempéries do clima, que jamais atrapalham sua estadia na calçada. Sua saúde é muito boa, tem uma certa surdez mas é seletiva - só é surdo às reclamações da mulher - e tem também reumatismo, que ataca convenientemente quando lhe pedem favores que exigem algum esforço físico.
A vida do véião é longa, muito longa, sei de um que durou 137 anos. Nessa época, depois dos 105 anos, eles costumam não mais sair da calçada pra nada. Quando você passa, te cumprimentam com um quase imperceptível aceno de cabeça. A tendência é se cristalizarem ali, transformando-se em verdadeiras estátuas de calçada.
Na própria Vila Tibério existe um ancião de calçada, contam estar lá há uns 230 anos. Não se sabe ao certo se está morto ou vivo. As crianças costumam sentar em seu colo, os passarinhos pousam em sua enorme barriga, os cachorros fazem xixi nos seus pés e, na calada da noite, os jovens do bairro fumam droga em torno dele. Ele é modelo e sonho de carreira de todo tiozão de calçada, ganhou estadia eterna na tão amada calçada.