Eu trabalho num hospício. Hospício é um lugar que gera curiosidade e fascínio e sei lá mais quê nas pessoas que nunca entraram em um.
Quando revelo o lugar onde trabalho, tenho, quase sempre, que conferenciar sobre como é, quem vive lá, o que exatamente eu faço, se é perigoso, se não tenho medo, se não vou ficar louca lá dentro. Às vezes falo direitinho, às vezes pelas metades, depende do saco e também de quem especula.
E no meio das minhas redações do tipo 'Meu Hospício', fico buscando por uma imagem perfeita, suficiente em si para explicar o lugar e que me poupasse falatório. Mas é difícil, nunca funciona.
Não dá, por exemplo, pra dizer: "Sabe açougue? Então, é igual açougue." Ou: "Já foi pro Paraguai? É mesma coisa que ir por Paraguai." Porque o chico-especula é sempre concretão e sempre pergunta mais: "Mas tem carne?"; "Tem muito paraguaio lá?".
O tiro da imagem retórica sempre me sai pela culatra e tenho que ficar explicando mais e mais: "Usei açougue porque é uma imagem forte, os filmes brasileiros sempre apelam pra ela e tal."; "Não, não. Até simpatizo com Paraguai. Só achei que representava, foi só isso, força de expressão, entende?" Não, não entende.
Agora mesmo achei uma imagem muito boa, não vou poder usar com os concretões, também porque eles não costumam ter vida virtual, mas eu adoraria dizer:
- Sabe internet? Sabe blogue? Tá ligado os Wunderblogs? O Alexandre Soares Silva, sabe? A caixa de comentários dele? Então, é aquilo lá. Sem o menor nexo, bagunçado do mesmo jeito; com mais gente, numa rotação mais acelerada e também com cheiro, ruim a maior parte das vezes, mas basicamente é aquilo lá. O hospício é a caixa de comentários do Alexandre Soares Silva ao vivo.
- Ah, tá.