junho 25, 2004

Windows, esse vendedor de enciclopédia

Detesto quando o Windows resolve se mostrar útil, prestativo. Eu tô lá transitando, entro aqui, entro ali, saio de lá, coisa e tal; e aí o Windows começa a falar comigo feito um camelô de praça:
- Viu, o Windows pode criar tal pasta, se tiver interessado clica aqui.
Pode reparar isso, recuperar aquilo, corrigir erro nesse ou naquele arquivo... E vai falando, mais que o homem da cobra.
E a correção ortográfica do Word* ? Como fala, gente! Não adianta dizer pra ela ignorar a sentença, ainda assim ela vai palpitar:
- Será que não seria melhor escrever desse jeito, botar uma vírgula aqui e inverter a ordem da frase?
No começo eu deixo o Windows falar, porque, coitado, eu entendo ele como um primo mais novo que fica me mostrando tudo o que ele aprendeu a fazer desde a última vez que encontrei com ele, seis meses atrás. Mas depois eu começo a me irritar:
- Tá bom, já sei que você é um menino inteligente, agora me deixa trabalhar um pouco. - falo com voz branda e tal, mas falo.
Só que ele continua. Respiro fundo, coitado!
É aquela amiga prestativa, sensível, que nem é tão íntima assim mas quer me ajudar a resolver tudo na minha vida. Então acontece alguma coisa e eu fico triste, tô sofrendo e tal mas tô indo, tô levando; só que ela me liga a cada meia hora, incluindo a madrugada, pra perguntar como é que eu estou e o que ela pode fazer por mim. A vontade é de abrir o jogo:
- Escuta, filhinha, você gosta de saber que eu estou sofrendo, né? Fala a verdade.
Mas respiro fundo de novo, tadinha, tão bem intencionada... Digo com voz forjadamante melada:
- Está tudo bem, querida. Obrigada por se preocupar. Agora eu vou dormir, amanhã eu te ligo, tá?
Mas o Windows insiste, a insistência do feirante do Ceasa. Nessa altura do campeonato já está ridículo, humilhante pra ele, eu começo a ficar com pena.

O Windows se transformou na minha avó e, tal qual ela, fica oferecendo janelinhas, como se fossem as guloseimas que ela me oferece sem parar, mesmo quando eu não tô com fome:
- Quer goibada?
- Não, vó, brigada.
Ela anda até a cozinha:
- Tem queijo fresco, come com goiabada.
- Não, vó, valeu.
Ela rodeia a minha cadeira.
- E bolo de fubá?
- Vó, tô satisfeita, depois eu como.
- Tá.
Ela faz um esforço enorme pra ficar quieta mas não consegue:
- Quer que eu faça bolinho de chuva? Bolinho de chuva você gosta.
- Vó do céu, eu não quero nada, tô cheia. Quando eu tiver com fome eu falo!
Aí ela faz bico, senta no sofá e começa a fazer crochê rapidinho. Certeza que ela pensa nessa hora o quanto eu sou ingrata, que ele tá só preocupada comigo, que me achou magrinha demais... o quanto fiquei sem educação depois que cresci e por aí vai.
Ela levanta os olhos do crochê:
- E pão feito em casa, quer um pedacinho?
Ah, não! Ele continua...
Depois de tanto tempo de incessante insistência em se meter na minha vida, eu já tenho com o Windows a intimidade que eu tenho com a minha mãe, e aí eu grito. Grito porque ela é minha mãe e pode e tem que entender porque eu estou gritando, além do mais, ela pediu por isso.
- ADRIL...
Não, não era esse o grito. Agora vai:
- SAI DAQUI! ME DEIXA.
Aí eu fecho com força todas as janelinhas que o Windows abre pra falar comigo, como se tivesse batendo a porta na cara dele.
Mas é perigoso fazer isso, porque aí ele começa a perseguir e a pagar de misterioso:
- O Windows viu que você fez a operação 203.
Passa um tempinho:
- Agora você abriu a porta 456.
Até chegar ao famoso erro fatal. E aí ele se vinga bonito: fecha o programa na minha cara.
Eu, com a maior cara de bosta do mundo, constato que não adianta, eu preciso dele. Então vou até a cozinha, faço um café ou como um chocolatinho, engulo seco e pacientemente volto pra reiniciar tudo:
- Desculpa, eu me precipitei. Posso entrar de novo? - falo com voz muito meiga.


* Tinha uma professora da faculdade que fazia todas as correções gramaticais only e tão somente pelo corretor do Word. E a pesquisa acadêmica dela era feita no Google. Juro por Deus que ela digitava um termo específico da linha de trabalho dela e ficava fazendo estatística de quanto e explicando como tal termo apareceu no site de busca da internet. Inteligentíssima!

Posted by Colorina at junho 25, 2004 3:19 PM